morreu ontem david albuquerque. era um vagabundo. a causa foi o fim dos seus joelhos carcomidos e quebrados: suas pernas caíram do corpo; estava bêbado e não pôde se arrastar até o seu refúgio. em algum ponto do caminho não conseguiu. às vezes é que o acontece, pode ser em todos os instantes, basta um deslize, uma falha. dizem que bebeu até morrer. dizem que viveu para beber.
no seu enterro de hoje não houve comoção. apareceram algumas mulheres e um número ainda menor de homens. uma ralé - corja pútrida. antigos e velhos viciados em drogas do passado. ainda falavam em maconha e em cerveja gelada. devem ter ido ao terreno com pouca disposição, mas muito esforço: suas peles transpareciam os ossos. nenhum deles conseguiu algo importante na vida. havia uma pequena mulher, daniele. ela tentou tocar um violão, alguns acordes em nome de velhos tempos macabros. não foi capaz de cantar bem. as manchas no pulmão deviam ser por demais severas. seu instrumento estava quebrado, desajeitado.
uma outra mulher, também pequena, mais negra que a primeira, ficara cega em decorrência de tantas alucinações. não conseguia controlar os seus olhos e estava mais para um tola, uma vadia.
dois homens, ou um arremedo disso, foram os últimos a chegar. dois gordos, ou um dia o foram, hoje são pelancas pendentes a riscar-lhes os joelhos. um sorriso imbecil vez ou outra desponta de suas bocas secas. um deles, pele clara e destruída, ridiculamente soprou uma gaita e nada produziu para além da inconveniência e da vergonha. o outro, negro escuro, era mais sério e quem sabe parecia mesmo sentido com o fato de mais um bêbado morrer arrastando as tripas pelas calçadas. esse negro gordo apertou cordialmente a mão de um homem tão alto quando curvado. a pele era repleta de bolhas e queimaduras e fracassos. o homem alto bebeu um viscoso e nojento trago do passado: algo muito forte, amarelado e servido em um recipiente pequeno. todos perpassaram suas bocas imundas por aquele gargalo. como devem ter doenças idênticas nem se importaram com isso.
foi então que entendi o quão medonho era todo aquele cenário. no terreno porco em que o bêbado foi jogado dentro de um buraco disforme havia outros montes de terra. um deles era nomeado pela alcunha de macaquim, morto antes de mim (soube depois que uma doença repleta de tumores matou este louco, gemeu até seu último instante e não valia mais nada), um outro como bacu, no fim de tudo, não ficará nem mesmo tu (cortou o corpo em pedaços após crises sem sentido que nunca foi capaz de explicar).
os idiotas enterravam a si mesmos ali, onde nada mais existe. eles devem vir das fronteiras das mesas, da época em que se acreditava ser feliz o ébrio e artista o drogado. não entendo muito disso. entendo sim, que as suas entranhas estão poluídas e repletas de situações venéreas. entendo que eles nunca conseguiram nada.
uma mulher branca e outra morena, ambas com cabelos longos e emaranhados, arremessaram pequenos textos ao chão na medida em que os homens tapavam o buraco com metade do cadáver do bêbado. haviam arremessado o defunto numa algaravia, dispuseram a bebida amarela sobre ele e lhe deram abraços e beijos. o fedor de entranha e merda e álcool não parecia incomodá-los. os intervalos em que despendiam seu tempo para tossir ao invés de jogar terra eram de uma sinfonia bruta. assim se fez mais demorada a cerimônia.
e vão embora, para além do terreno, os falidos. os que não despertaram ao seu tempo.
quem sabe, em nome de um grande favor, não voltem mais.
por David Albuquerque
Para o desprazer do observador da cena, todos esses espécimes de lixo fétido ainda estão em plena forma. Corpos ainda sãos, dando seus espaços para que as impurezas que lhes tomarão suas vidas possam se apossar de seus corpos... mas por um bom tempo, eles ainda se amontoam e para beber, tossir e sorrir! Magnífico texto! abraço irmandade!
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