sexta-feira, 30 de julho de 2010

Montanhas bolivianas

Entre montanhas senti em meu rosto o vento forte e gelado da natureza, livre e nua como só ela poderia ser.
A morte me pareceu tranquila, alí, ela não me afligia, embora tudo ao redor cheirasse a sangue e lágrimas de milhões de mortos em dias de exploração e escravidão.
Pensei em todos que amo com muito amor. Um amor despreocupado, amor de bicho, amor que une mesmo longe, amor que não morre e que reconhece. Lembrei dos macacos que vi no zoológico brincando, insultando, roubando a atenção. Ali estava amor, o mais puro que vi.
Pensei no quanto, por vezes, não amamos, o quanto nos afogamos na sonoridade irritante das cidades, do papel (dindin) e do que nem percebemos o que é. Tive a sensação de nada saber do amor.
Mas naquele instante, em cima de um caminhão boliviano, dividindo o mesmo espaço/momento/tempo com meus companheiros Thyci, Davidi e Jão, o vento soprou meus cabelos e minha roupa, o céu estava próximo de nossos pensamentos, assim como o sol a se esconder pintava o azul-céu de rosa chocante. Alí, por um instante, eu senti o amor.
E todo mal se desfez, não havia mágoa ou dor. Pensei ser a felicidade, mas não sei. Não sei se as palavras equivalem as idéias e se as idéias equivalem ao sentir. Eu sinto saudade, sinto a dor de outrem, sinto a mudança junto as montanhas passarem. E quero pintá-las, desbravá-las, me vestir delas. Vejo desenhos, seios, braços, rostos, nus e pássaros.
Existe um prazer estético que não entendo, existe uma distorção de intenções. Existe uma falta de amor em nossas relações com o mundo que também não entendo.  Existe um monte de coisas, mas, por vezes,  parece mais fácil optar pelo sofrimento, pelo imediato, por falta de tentaivas por algo melhor.
NÃO ENTENDO, NÃO ENTENDO. NÃO ENTENDO!

por Daniele Jucá

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