Há corações que chegam.
São misto de saudade e apreensão. Desejam intensamente estar entre pessoas, situações e imagens familiares e queridas, mas têm medo porque o retorno é sempre um novo.
Desde que perceberam que estavam a retornar não cantavam à outra coisa:
Ah, Fortaleza!
Cidade-mulher de cabelos ao sol, cheiro de mar e pele com o frescor de tua maresia.
Sinestésica é a falta de te ter. Todos os sentidos gritam por ti, fazem o corpo pulsar mais forte.
Na recordação da alma e do corpo estão os seus dias ensolarados, seu verde mar, suas ruas, praças e arquitetura que mostram-se muito mais belas na noite que chega as seis, como eu.
Mas, na lembrança estão também seus moradores de rua, as intoleráveis cenas de um trânsito desorganizado, os lateiros que vagam, a prostituição que inunda tua orla... Disso, só teus amantes podem falar com a real propriedade de quem ama, convive, respeita, mas também nega, não cala.
A tua falta manifesta-se na saudade das pessoas, na nostalgia, na saudade estomacal e na alegria de lembranças de situações tão simples! Festas, amigos, a constante mesa de um bar sujo de nossa conhecida, amada e famigerada periferia, uma noite morna, um amanhecer, uma tarde de domingo sem pressa de ir embora, um caminhar na mais avançada das horas noturnas pelo seu centro que nunca morre. A lua cheia em teu céu...
E é no teu céu que meu coração está. Ele sobrevoa teu solo, paira sobre teu corpo e o observa sedento. Há mais do que coração. Há nisso algo de vouyer, de libido. Posso desejá-la com uma intensidade semelhante a que desejo àquele homem ou a uma alucinante orgia. É agora o que quero. Quero tê-la, me derramar dentro de ti. Anseio por chegar.
Inicia-se o anoitecer e teu corpo se mostra ainda mais. Provoca-me ao ser iluminado. Posso ver cada contorno e movimento em ti.
Palpita o corpo meu: poderei te tocar, estaremos novamente em contato.
Chego.
Descubro: és tu a estação a que sempre vou querer retornar. Sem hora ou dia marcado, o viajante trem do meu espírito inquieto e sonhador, tem em ti desejo certo, braços abertos para um acolhedor abraçar.
Compreendo a enormidade disso e ao retornar, ao contrário do que eu e alguns poderíamos pensar, sinto-me IMENSAMENTE LIVRE: estou em Fortaleza!
por Thiciane Pimentel
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