sexta-feira, 30 de julho de 2010

No dia que o centro parou

Tenho muitas lembranças do centro da cidade. Nasci e me criei aqui, sempre acompanhava minha mãe quando ela tinha que resolver ou comprar alguma coisa por lá. Mas, gostava mesmo era de ir com o meu pai, ele sempre deixava eu ir de chinelo e short. Minha mãe não, ainda por cima ficava me comparando às menininhas de vestidinho florido.
Consigo até imaginar uma boa parte do centro enquanto escrevo essas palavras. Seus limites beirando o mar, beirando avenidas. Foram muitos anos de convívio diário, mais de uma década. Naquelas praças aprendi muitas coisas, nas galerias, teatros, motéis, bares e nas ruas do centro. E o que para muitos pode ser considerado um lugar comum, da impessoalidade, onde as pessoas em geral estão somente de passagem, não se identificando de fato com o lugar, tornou-se para mim também uma espécie de marca identitária, origem de muitos eu´s. É memória viva em meu corpo. E de tanta intimidade posso estar consciente quando acelero ou desacerelo no descompasso hipnótico das pessoas entrançando entre  o asfalto e as calçadas superlotadas.
E das memórias que trago, uma é muito viva.
 Uma tarde como qualquer outra no centro da cidade: sol escaldante, cheiro de fumaça, carro buzinando, menino chorando, crente pregando, ônibus passando, mendigos, pilantras, lojas, muitas lojas e gente, muita gente. Isso aí tudo, que vocês que moram aqui já sabem!
Estávamos lá, no lugar que é assim como se pode dizer: um espaço democrático por excelência! Onde tem gente de todo tipo, de toda cor, de toda classe social, de todo credo. Todo mundo junto e consumindo! Com exceção, é claro, daqueles que vivem das migalhas e esmolas de quem tem moeda de troca.
Mas... eu falava mesmo de uma lembrança. De uma tarde que na verdade, só parecia ser uma tarde quente qualquer.  Nesse dia tive uma forte impressão de que o centro parou.
E eu ia em boa companhia, pois bem sei que já dizia alguém muito esperto: “Felicidade só é real quando é compartilhada”. E mais uma vez o centro foi palco de momentos raros. só para loucos.
 Atravessamos toda a selva de pedra em busca do mar, trazendo nas mãos uma vitrola portátil, uma bolsa cheia de vinis e muitos sonhos na cabeça. E tinha que ser o centro, ali no passeio público, sim, bem perto de onde nasceu o baobá. Limiar, quase fronteira entre o concreto e o mar.
Em meio a tantas lembranças de tempos que nem vivemos, fizemos daquela uma tarde que certamente ficará pra história. O dia em que a vitrola tocou na grama da praça. E nós dois ali, desacelerando o tempo, fumando um fino e de peito aberto.  Hoje, não tenho dúvidas, naquela tarde o centro parou pra ouvir Pixinguinha cantar.

por Samara Garcia

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